domingo, 15 de abril de 2007

O almoço grátis novamente: agora a avaliação de projetos de pesquisa.

Jerry Avorn, professor de farmacoepidemiologia da Harvard Medical School começa seu artigo no The New England Journal of Medicine (Paying for Drug Approvals — Who's Using Whom?) da seguinte forma: "Anos atrás, um diretor de hospital regional explicou me como as reuniões clínicas no seu hospital estavam funcionando bem: " a indústria farmacêutica traz o conferencista, paga seus honorários e o almoço dos médicos que por sua vez garantem audiência". Isso funciona para nós com orçamentos tão apertados" . Avorn utiliza esse exemplo corriqueiro para avaliar outro problema mais sério: o pagamento das indústrias ao FDA para analisar seus processos. De início, parece justo, mas depois há um confusão, que o autor questiona: afinal quem está pagando quem? A questão é polêmica, porque no Brasil não é permitido pelo Conselho Nacional de Saúde, o pagamento às comissões de ética em pesquisa por parte da indústria, para avaliarem uma quantidade grande de projetos originados na própria indústria. Os avaliadores está recebendo, na maioria das vezes salário da própria instituição. Trata-se de um tema que não permite respostas simples.
Outro tema, esse sim com resposta fácil é o almoço grátis oferecido nas reuniões clínicas em hospitais, principalmente os de ensino.. Algumas poucas universidades americanas já abandonaram esse hábito e, aqui ao que consta somente o Hospital Universitário da USP. Esse aspecto e outros do relacionamento indústria farmacêutica-médicos é abordado no site http://www.nofreelunch.org.
O texto de Avorn pode ser acessado clicando o título do post ou em http://www.nejm.org onde há mais dois articulistas analisando a questão.
Years ago, an administrator at a community hospital explained to me how well his institution's grand-rounds program worked. "The drug companies find the speakers, pay their honoraria, and provide free food for the doctors, which helps a lot with attendance," he said. "It works well for us, especially with our budgets so tight." Yet those lunches were actually quite costly for the hospital: attendees at such events predictably go on to prescribe the products promoted there — which is precisely why the drug companies so willingly pay for these programs. This penetration of commerce into the province of science isn't limited to continuing medical education. Since 1992, the United States has relied heavily on the pharmaceutical industry to pay the salaries of Food and Drug Administration (FDA) scientists who review new drug applications. The Prescription Drug User Fee Act (PDUFA) is now up for its periodic 5-year renewal, and Congress seems ready to reauthorize it with the same short-sightedness that afflicted that naive hospital administrator.

3 comentários:

amigo de montaigne disse...

Caro Professor Lotufo,
imagine uma reunião clínica semanal, em que residentes falem de temas de clínica médica, sem a presença de qualquer membro de laboratórios, cuja única participação é financiar o almoço -sanduíches e refrigerantes- de forma revesada. Por exemplo, hipoteticamente: semana 1, Pfizer; semana 2, Bayer; semana 3,Sanofi-Aventis e, semana 4, Novartis. Há algo de antiético nessa atitude, em acitar o patrocínio para o almoço? Gostaria muito de saber a sua opinião, que me é muito relevante.
Atenciosamente, Amigo de Montaigne.

Paulo Lotufo disse...

Prezado Amigo, não me sinto na capacidade de julgar,nem mesmo hipoteticamente.Mas,somente fazer um comentário. A indústria farmacêutica (parte considerável) não está preocupada com criar uma imagem favorável, mas sim aumentar as vendas no próximo trimestre de um medicamento específico. Por isso, duvido que uma proposta como essa vingue.

amigo de montaigne disse...

Caro Professor Lotufo,
em primeiro lugar, obrigado pela resposta. Em relação ao exemplo hipotético citado, ela já acontece há 3 anos nas dependências de um grande hospital acadêmico do Brasil, que certamente o senhor conhece. Concordo de forma irrestrita com o seu comentário em relação à indústria farmacêutica, mas algumas propostas podem contar com a contribuição da indústria sem comprometer a imagem do pesquisador. Seria como uma "PPP" (parceria público-privada) em nosso microcosmo. Há relação segura, não-promíscua, entre pesquisador e a "big pharma", embora seja exceção.
Saudações palmeirenses, Amigo de Montaigne.