sábado, 15 de março de 2008

A epidemiologia explicando a economia: ou o "fato social" de Durkheim e o fim da CPMF.

Como The Economist resolveu discutir a epidemiologia da aids no Brasil. Sinto-me confortável em discutir economia e sociologia.
Não me lembro de estar em São Paulo, em janeiro, com tanto movimento e agitação. Nem o período de carnaval "segurou" a cidade. Em março, o movimento está muito maior do que o habitual. Hoje, noticia-se que as compras aumentaram em janeiro em relação a dezembro, fato inédito. Ou seja, minha impressão é fato . Economistas não sabem explicar. Fico tentado a apresentar uma hipótese: o fim da CPMF. Um indivíduo que recebe 2000 mil reais se gastasse todo o salário de imediato pagaria "somente" R$ 7,60 da CPMF. Como ele, deixou de recolher essa quantia, gastou também esse valor. Ou seja, ao invés de recolher a Brasília, ele deixou na sua cidade. Milhões fizeram o mesmo. Esse recurso multiplicou-se na economia real. O indivíduo não percebeu o ganho, mas o impacto social é grande.
A epidemiologia demonstrou que reduzir em 2mm de mercúrio a média populacional da pressão arterial reduzirá em 10% as mortes por doença cerebrovascular. Notem que 2 mm não é a unidade de medida no aparelhos tradicionais, por isso imperceptível ao indivíduo, mas com impacto populacional.
Ou, como definiu Durkheim, o fato social: que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter."

sexta-feira, 14 de março de 2008

Transplantes de órgãos:os pobres de países pobres

Abaixo, mais um relato de uma situação que se estenderá nas próximas décadas: ricos comprando órgãos de pobres em países pobres. Pai vende parte do fígado para custear tratamento de câncer do filho, isto ocorreu no Cairo, Egito. A notícia é do Los Angeles Times, a síntese do blogueiro do The Wall Street Journal. Outros post sobre o comércio de órgãos, situação do transplante no Brasil e sobre a doença renal crônica podem ser lido clicando aqui.
More scenes from the global black market in organs. In Cairo, the 4-year-old son of a bus driver needs surgery for cancer. The bus driver sells part of his liver on the black market to pay for the procedure. The boy dies. But the bus driver has a new job: black-market organ broker. “I sold part of my liver to save my son,” Mustafa Hamed tells the Los Angeles Times. “But some people who come to me aren’t that desperate. They could find other solutions. Many men I see now want to sell their organs so they can afford to buy an apartment to get married. That doesn’t seem desperate enough to me. I try to tell them: ‘Be patient. You don’t need to do this.’ ” This is what happens when medical technology allows for lifesaving transplants and organ donors are in short supply. The underlying themes are the same around the world — poverty and wealth, life and death — but the story takes on different tones in different countries. In Egypt, geography and religion are drivers. Wealthy residents of oil-rich Persian Gulf countries come to Cairo in need of organs, Mohamed Queita, a legislator who has been trying for years to regulate transplants, tells the LAT. But Queita’s efforts have been slowed by Islamic clerics who argue that transplanting organs, even from brain-dead patients, is forbidden. Religious teachings can cut both ways, though. Looking back to his own operation, when he sold a piece of his liver, Hamed says: “Even if something bad had happened to me during the operation, I would not have minded as long as the objective was to rescue my son. If one dies for the sake of his son, he gets rewarded by God.”

quinta-feira, 13 de março de 2008

The Economist: uma visão da aids no Brasil.

The Economist dessa semana publicou reportagem no Brasil mostrando que a aids avança no interior e, entre as mulheres. A aids "vai" para o interior, os homicídios também "foram". Ora, a economia também foi para o interior e, parte da população lá se fixou. Nada estranho. Importante ressaltar que a taxa de prevalência no Brasil é baixa, 0,6% como ressalta a revista, isto porque o programa de tratamento é tão efetivo que mantém os infectados vivos. Ao contrário, de outros países.
A portrait in red Mar 13th 2008 SÃO PAULO From The Economist print edition One of the world's most successful AIDS programmes faces new problems BRAZIL'S government is accustomed to being lampooned for being wasteful, ineffectual and corrupt. Occasionally, though, it does something really well. Keeping HIV/AIDS under control in a country where sex rivals football as the national sport is an impressive achievement, and over the past 20 years the government has done just that. Now, however, the disease has spread across Brazil (see maps). Although the total number of cases remains low at 620,000, representing 0.6% of those aged 15-49, the change in the profile of sufferers is taking the fight to places where it will be much harder to win. “The epidemic has now taken the contours of the general population,” says Mariângela Simão, who runs the federal government's AIDS programme in Brasília, the capital. “It has become a portrait of Brazil.” Brazil's epidemic began life among gay men in the south-east of the country, probably after travelling south from the United States rather than west from Africa. Had the virus not affected some white men living in the country's most prosperous region, the response might have been less energetic, some suggest under their breath. Thankfully, it was energetic, and it has taken three forms. First, there has always been an insistence on the need to wear condoms, particularly at carnival time (when the usual supply of free prophylactics increases by 40%). The World Bank recently helped the government to buy a billion condoms (for 190m inhabitants)—around a tenth of the world's total supply. It took a year to find factories with sufficient capacity and the right quality controls to fill the order. Second, the government funds free treatment for anyone with AIDS. This has involved side-stepping patents on anti-retroviral drugs to keep the bill down. Brazil saved an estimated $30m last year through the compulsory licensing of Efavirenz, a drug developed by Merck. But this strategy has its limits: the launch onto the market of one new drug has been delayed despite undergoing some clinical trials in Brazil. Third, NGOs have been good at publicising the cause and at holding federal and local governments to their promises. This is particularly important in the north and north-east of the country where the disease is spreading fastest, and where some politicians have a semi-feudal relationship with voters. Cristina Pimenta, head of the Brazilian Interdisciplinary AIDS Association, says that NGOs are also now focused on making sure women know about the disease, get tested and, if necessary, get treated. During this year's carnival in Pernambuco, a poor state in the north-east, a government campaign was aimed almost exclusively at women. (restante clique aqui).

Farmacêuticos e Doenças Crônicas: um bom debate

Uma proposta polêmica que está na agenda da ANVISA, mas que deve e necessita ser avaliada com o cuidado devido: farmacêuticos no controle de doenças crônicas. Podem ser um braço da Big Pharma ou um poderoso agente de saúde pública. Abaixo, post do The Wall Street Journal sobre diabetes e o acompanhamento em farmácias americanas.
Diabetes care is a poster child for much of what’s wrong with our health-care system, which is good at handling acute crises but bad at preventing them. Pharmacists are angling to step into the breach and improve preventive care for diabetics. In a project described in the March/April Journal of the American Pharmacists Association, employers in 10 U.S. cities agreed to waive copays for employees’ diabetes meds, and to fund regular meetings between pharmacists and diabetic employees. A year after the project launched, 914 patients who had been enrolled for at least three months saw their hemoglobin A1C, a key measure of health for diabetics, fall on average to 7.2% from 7.6%, a significant improvement. “The pharmacist is really helping people stay on track, just like a coach would for whatever skill you want to choose,” said William Ellis, CEO of the American Pharmacists Association foundation. Patients typically meet with pharmacists once every few months, Ellis said. Costs vary, but a 30-minute session usually runs somewhere between $60 and $90, Ellis said. GlaxoSmithKline paid for the foundation to conduct the study. A similar project in Asheville, N.C., a few years back suggested that employers save money in the long run, because improving diabetics’ health on the front end cuts the rate of expensive hospital procedures that are more common when diabetes is poorly controlled. Ellis said an economic analysis of the 10-city project is expected later this year.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Um testemunho da tuberculose na Índia

Vikram Paralkar é um médico indiano que realiza estágio como médico residente na Filadélfia, Estados Unidos. Citando Keats e, depois Thomas Mann, ele redigiu um texto na primeira pessoa que é simplesmente fantástico mostrando a situação indiana. Ele traz ao ambiente médico, a descrição, o testemunho, uma das bases da clínica e da epidemiologia. O texto foi publicado no The New England Journal of Medicine com acesso livre.

Tuberculose avança na África.

The New England Journal of Medicine destaca o aumento dos casos de tuberculose na África em decorrência da aids. A única boa notícia seria a possibilidade que melhorou a notificação dos serviços de vigilância epidemiológica. Mas, a infecção com o HIV e as péssimas condições dos serviços de saúde, agravado pelo êxodo de profissionais propiciou o aumento descrito na figura.

Integração docente assistencial: a USP e o SUS

Participe com trabalhos originais do I Simpósio Pró-Saúde USP organizado pela Escola de Enfermagem e Faculdade de Medicina.
A página eletrônica é
Local: Centro de Convenções Rebouças
São Paulo SP
data: 08 e 09 de maio de 2008.

Lourdes de Freitas Carvalho, in memoriam

Morreu ontem, 11 de março de 2008, a Professora Lourdes de Freitas Carvalho, de quem sou o quarto sucessor na superintendência do Hospital Universitário.
Abaixo, despacho da Agência Fapesp. 12/03/2008 Agência FAPESP – Faleceu na segunda-feira (10/3), aos 93 anos, a professora aposentada Lourdes de Freitas Carvalho, do Departamento de Prática de Saúde Pública e ex-diretora da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo. Entre 1980 e 1986, Lourdes também foi superintendente do Hospital Universitário (HU) da USP. Ela tinha pneumonia causada por fibrose pulmonar. O corpo foi velado na FSP e enterrado, na terça-feira (11/3), no Cemitério São Paulo. Lourdes se formou em medicina na Faculdade de Medicina da USP e, em 1943, quando trabalhava no Hospital das Clínicas (HC), foi aos Estados Unidos, com bolsa de estudos da Fundação Rockefeller, para adquirir conhecimentos sobre o Serviço de Arquivo Médico e Estatística (Same), tendo, em seguida, aplicado esses conhecimentos no próprio HC. Seus ensinamentos sobre o Same, que tem por finalidade a guarda e preservação do prontuário médico, incluindo dados pessoais, evolução clínica e exames, foram, durante muitos anos, a única referência para todos os que se interessavam pelo assunto. Do Hospital das Clínicas, o Same foi disseminado por todo o Brasil e, atualmente, é utilizado pelos serviços de estatística de diferentes hospitais do país. Em 1951, juntamente com os professores Odair Pacheco Pedroso e José Gabriel Borba, Lourdes foi responsável pela criação do curso de especialização em Organização e Administração Hospitalar na FSP/USP. Obteve, em 1973, o título de professora titular da FSP e, de 1982 a 1986, exerceu o cargo de diretora da faculdade. Foi ainda diretora da Clínica Ortopédica e Traumatológica do HC e superintendente da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Ainda ao lado do professor Odair Pedroso, criou o Hospital de Cotia, hoje Hospital Dr. Odair Pacheco Pedroso, do qual foi diretora durante 20 anos.

terça-feira, 11 de março de 2008

Tailândia bate firme na Big Pharma

Sem qualquer juízo de valor, mas o governo da Tailândia não tem medo da Big Pharma. Vai para cima, contra preços considerados extorsivos. Primeiro, medicamentos para aids com vitória (clique aqui), agora para câncer. O Brasil bateu na Big Pharma somente depois da Tailândia no caso da aids quebrando a patente do efavirenz. Aliás, uma boa pauta a ser cumprida: qual a situação atual da produção, distribuição e prescrição do efavirenz no Brasil. Eu, não tenho a menor idéia. Abaixo, trecho de reportagem do The Wall Street Journal sobre a proposta do governo tailandês.
Thailand's new health minister announced that he would urge the Thai government to continue to ignore patents on several cancer drugs, disappointing big pharmaceutical companies that had hoped Bangkok might roll back a policy of overriding patents in the name of public health. The drugs' makers include Roche Holding AG and Novartis AG of Switzerland and Sanofi-Aventis of France. Suphan Srithamma, a spokesman for the Thai health ministry, said that Minister Chaiya Sasomsup has decided to support the previous government's decision to ignore cancer-drug patents in a bid to cut the cost of medicines for the Thai people. The health ministry will make its recommendation to the Thai cabinet today, according to Dr. Suphan. Thailand's previous health minister, Mongkol na Songkhla, decided in early January to issue compulsory licenses (a policy that permits lower-cost generics) for four drugs: Novartis's imatinib, also known as Gleevec; Novartis's breast-cancer drug letrozole, whose brand name is Femara; Sanofi-Aventis's docetaxel, marketed as Taxotere and used to fight lung and breast cancer; and Roche's erlotinib, whose trade name is Tarceva. Novartis proposed that same month to offer Gleevec free to poor Thai patients, possibly making a compulsory license unnecessary, according to the ministry of health. A Novartis spokeswoman wasn't available for comment. It wasn't clear how yesterday's decision would affect Gleevec, given Novartis's apparent earlier concession.

Dica de livro: O Mapa Fantasma

O livro de Steven Johnson, O Mapa Fantasma (no original : The Ghost Map. The Story of London´s Most Terryfying Epidemic - and How It Changed Science, Cities, and the Modern World) editado pela Zahar encontra-se em todas livrarias por R$39,90. Compensa ler uma das sagas mais interessantes da história e, ainda desconhecida de muitos, incluindo aqueles interessados em temas da história da medicina. Quem gostar, poderá continuar lendo The Strange Case of th Broad Street Pump, de Sandra Hempel, editado pela University of California Press, com entrega pela Amazon. Aliás, Zahar, porque não traduzir esse também?

Observação e Experimentação: os dilemas da clínica e epidemiologia no século XXI

Quem não ficou estupefato com as diferenças entre os resultados do Nurses´Health Study (observacional) e os do Women´s Health Initiative sobre a terapia hormonal pós-menopausa? Quem não se cansou de ouvir falar em "medicina baseada em evidências" ? Quem não aceita que estudos de segurança não sejam parte do processo provisório de medicamentos? Essas dúvidas não são dirimidas no texto (advirto para iniciados) Jan Vandenbroucle publicado no Plos Medicine: Observational Research, Randomised Trials, and Two Views of Medical Science.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Medicamentos na água potável: ?!?!

Medicamentos encontrados na água. O texto completo é um despacho da Associated Press (clique aqui) . Abaixo, o comentário do blogueiro do WSJ
It’s not so expensive to get pharmaceuticals after all: Just drink water. An investigation by the Associated Press found trace amounts of scads of drugs in drinking-water supplies around the country. For a list of what was found in the watersheds of 28 metro areas, click here. Among the water’s offerings were antibiotics, anti-convulsants, mood stabilizers and sex hormones. There were traces of sedatives in water serving the city that never sleeps. While eyebrow-raising, there’s debate about what this actually means for human health. A microbiologist for PhRMA, the drug industry’s trade group, told the AP there’s little to no risk to humans. But at a conference last summer, Mary Buzby, director of environmental technology for Merck, said: “There’s no doubt about it, pharmaceuticals are being detected in the environment and there is genuine concern that these compounds, in the small concentrations that they’re at, could be causing impacts to human health or to acquatic organisms.” Recent research found the small amounts of drugs affected human embryonic kidney cells, human blood cells and human breast cancer cells, the AP says, causing cancer cells to proliferate too quickly, for instance. (See this AP story for more on the research.) Wildlife are also being affected: Male fish are being feminized, creating egg yolk proteins. But some scientists caution the research is extremely limited, and there are lots of unknowns. Water providers rarely inform the public about the phenomenon, in part because they fear the fear factor. The head of a group representing major California suppliers told the AP that the public “doesn’t know how to interpret the information” and might be unduly alarmed. How do the drugs get in the water, anyway? Through our own waste, the AP explains. When people take drugs, their bodies absorb some, but not all, of the medication, and the rest goes down the toilet. Wastewater, of course, is treated before it’s discharged into reservoirs, rivers or lakes, and then it’s cleansed before it makes its way to the tap or into bottles. But trace amounts of drug residue remain.