domingo, 3 de dezembro de 2006

Um proposta excelente (bacharelado interdisciplinar) com um factóide (fim do vestibular)

Já saudei a proposta do bacharelado interdisciplinar (aqui referido como college) com sendo a única proposta nova que merece ser discutida no ensino superior. Mais importante do que "cotas". Infelizmente, essa discussão vem acompanhada de uma enorme bobagem: o fim do vestibular que discutirei a seguir.
Voltando ao principal: o bacharelado interdisciplinar representará um passo imenso na qualidade do ensino fundamental e médio com melhores professores, profissionais mais adequados ao mercado e, estudantes de cursos como medicina mais maduros e com formação mais completa.
O problema maior será o custo que poderá ser compensado pela transferência total e imediata dos recursos do Pró-Uni, a maior transferência de recursos públicos para a iniciativa privada do atual governo, depois da política de juros.
Abaixo, a reportagem de "O Estado de S.Paulo" sobre o tema com negritos de minha autoria.
Universidades federais propõem fim do vestibular (......De acordo com o reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Naomar Almeida Filho, um dos idealizadores do Universidade Nova, já é consenso, por exemplo, que os Bacharelados Interdisciplinares (BIs) - cursos de três anos em áreas como saúde, artes e humanidades - que os estudantes teriam de freqüentar antes de começar um curso superior de formação específica - como Direito, Medicina e Engenharia - passariam a ser aplicados a todos os estudantes de ensino superior. "Apesar dessa definição, ainda não chegamos à conclusão de quantas serão essas grandes áreas do conhecimento. Partimos de quatro (ciências, humanidades, artes e tecnologia), mas há quem defenda até sete (as anteriores, acrescidas de saúde, ciências da natureza e ciências humanas e sociais)", afirmou o reitor. (..) Fim do vestibular De acordo com Almeida Filho, também ficou estabelecido no seminário que o vestibular, como é aplicado hoje, seria descartado na Universidade Nova. "Como prevemos dobrar a capacidade de estudantes das universidades com a reforma, existe a possibilidade de adotarmos mesmo o Enem como processo seletivo, desde que fossem feitas algumas alterações no exame", afirma. O reitor da Ufba acrescenta que representantes das instituições que adotarem os conceitos da Universidade Nova deveriam fazer parte do conselho para que o Enem fosse adotado como padrão de seleção unificado. (...)
Estrutura acadêmica Como é hoje? Estudantes freqüentam aulas focadas na carreira profissional escolhida desde o início do curso superior. Ao fim do curso - que dura de quatro a seis anos, em geral - o aluno recebe a certificação de conclusão de ensino superior e, em tese, está preparado para exercer a atividade cursada no mercado de trabalho. Com a mudança nos três primeiros anos de ensino superior, os estudantes freqüentariam Bacharelados Interdisciplinares (BIs), divididos por áreas de conhecimento - como ciências, artes, humanidades e tecnologia. A partir do segundo ano do curso, os alunos teriam opções de disciplinas mais focadas na profissão de interesse, mas continuariam tendo de freqüentar as aulas gerais da área. Após a conclusão do BI, o estudante receberia o diploma de bacharel na área de conhecimento escolhida e poderia optar por fazer complementação profissionalizante (estima-se que dure de um a dois anos), bacharelado ou licenciatura em uma disciplina específica, como Física, Matemática ou História (mais um ou dois anos) ou uma pós-graduação na área de interesse. Benefícios apontados na mudança - Ampliação de conhecimentos e competências cognitivas do aluno; - Adiamento do processo de escolha profissional por parte do estudante, o que diminuiria as chances de arrependimento; - A flexibilização curricular, que daria aos alunos a possibilidade de escolher os percursos de aprendizagem que ele gostaria de seguir. Problemas apontados na mudança - Ao fim do BI, o estudante teria um diploma de curso superior, mas não estaria apto a ingressar no mercado de trabalho em profissões que exigem formação superior específica (Medicina, Engenharia e Direito, por exemplo); - Não há garantia de que o estudante do BI consiga vaga nos cursos complementares de profissionalização ou nos bacharelados específicos. Seleção dos estudantes e distribuição de vagas Como é hoje? As vagas são limitadas pela estrutura física das universidades de acordo com as necessidades dos estudantes de cada carreira. Os estudantes interessados são selecionados por meio do vestibular. Têm acesso aos cursos os que obtiverem as maiores notas no exame. Com a mudança. Como nos Bacharelados Interdisciplinares (BIs) estudantes de várias carreiras acompanham as mesmas aulas, tende a crescer o número de vagas durante os três primeiros anos do ensino superior. Os estudantes passariam a ser selecionados pelo rendimento no Enem. Como não está prevista a ampliação imediata da estrutura física das universidades federais, porém, ainda não se sabe como vai ser feita a seleção dos estudantes que tiverem interesse em seguir um curso profissionalizante após os Bis. A tese mais aceita é que as vagas sejam preenchidas pelos alunos com melhor aproveitamento nas avaliações durante os Bis. Benefícios apontados na mudança - Maior acesso dos estudantes ao ensino superior público. Problemas apontados na mudança - Por causa da maior quantidade de alunos, os cursos perderiam qualidade; - Como não existe previsão de aumento de estrutura física dos cursos profissionalizantes, a grande seleção dos alunos, em vez de ser feita pelo vestibular, apenas seria adiada por três anos para quem estivesse procurando um curso profissionalizante

4 comentários:

PauloSG disse...

Lotufo,

Estou longe de estar seguro como você quanto ao bacharelado interdisciplinar. Ideia parecida foi a de fazer os cursos universitarios com institutos básicos - como o ICB da USP. Isso traz a vantagem de dar ao aluno, ainda em início de formação, uma visão mais genérica e até científica das cadeiras. Por outro lado, falta "motivação profissional", que também é importante. Lembro de ter lido (décadas atrás, confesso) que trabalhos pedagógicos mostrando que alunos de Medicina se interessam mais, digamos, por Histologia, se lhes for dado uma noção do significado dessa cadeira na sua futura profissão. Ia um pouco por aí a questão dos "blocos" dos primeiros anos no Curso Experimental de Medicina da FMUSP, nos quais havia concomitantemente cadeiras básicas e clínica.
Por outro lado, já vi alguns professores da Faculdade de Medicina Veterinária da USP dizerem ter horror de propostas com ciclo básico. Eles temiam que canditatos a Medicina (por ser historiamente uma carreira mais concorrida e difícil) tomassem grande parte das vagas. Ao fim do ciclo básico, os piores (ou menos bons, não importa) entre eles, não conseguindo pegar Medicina iriam, por exemplo, para Medicina Veterinária. E, segundo aqueles professores, seria péssimo - veterinário precisa ser quem gosta de bicho, não quem não entrou em outro curso.
Com relação às cotas, tendo a ser contra; mas reconheço que é questão difícil, também não tnho segurança. Houve recentemente idéias interessantes no blog do Alon (blogdoalon.blogspot.com).

Um abraço,

Paulo Sampaio Gutierrez

Paulo Lotufo disse...

Paulo, esse aspecto da segunda opção, exemplificado na questão "medicina veterinária" merece ser considerado.
Concordo, pode ser um efeito colateral ruim para alguns cursos.

Jaime Vega disse...

Olá

Sobre o BI seria interessante os brasileiros conhecerem como funciona em outros países, me parece que o BI é um abrasileiramento do tal Pró-pedeutico, que é o meio como é feita a seleção de alunos para o nível superior em vários países Latino Americanos (Bolivia, Chile, Peru, Argentina, etc), nessa "modalidade de peneira" o aluno, no caso da Bolívia, tem o tal de BI ou Pró-pedutico durante um ano de acordo com a área escolhida (ex. saúde para medicina, humanas para arquitetura, exatas para engenharia, enfim) no qual todas as provas, inclusive provas surpresas são eliminatórias inclusive aquelas na última semana do ano de seleção. O aluno entra no 1. Ano da Faculdade que inicia após o tal Pró-pedeutico absurdamente em vantagem do que qualquer aluno aqui no Brasil no 1. Ano de Faculdade, já que durante o ano anterior ele foi crivilhado de estudos sobre a área em que ele quer atuar. Nesses países não há vestibular para engressar porém tem essa peneira que no fundo é mais difícil que o vestibular porém para quem está com vontade de estudar e com vocação, encara e passa bem. O problema no Brasil é a escala, lá nesses países são 1200 ou 2000 para 100 vagas aqui são 3000 por vaga, e se por uma obra do destino uns 2000 por vaga passam na peneira? Aqui poderiamos ter problemas. Sobre o BI não podemos esquecer que o Governo tem metas do Banco Mundial, ONU, etc, a cumprir e deve atender outros órgãos financiadores, para os quais há um número mínimo de alunos bachareis (entre outras exigencias) que deve estar computado nos números do país para novos financiamentos internacionais. Distribuir títulos de bachareis, que no fundo, não prestam para nada tipo o que está sendo proposto pelo BI é bobagem na certa, só serve para o IBGE maquiar os números de Terceiro Mundo do Brasil, o BI tem sua única utilização prática na seleção de alunos com vocação para a profissão, evitando médicos que esquecem coisas dentro de pacientes, engenheiros que usam areia de praia na construção, etc, talvez haveriam no futuro mais profissionais com amor à profissão que escolheram.

Paulo Lotufo disse...

Jaime Vega, gostei de sua contribuição com exemplos de fora. Agora, entendi o porquê da proporção tão díspare de "graduados" no Brasil em comparação aos demais países da América do Sul. Concordo, que somente o BI estaríamos melhorando nosso ranqueamento sem qualquer outro impacto. Minha experiência nos EUA com o college foi que o mestrados profissionalizantes de um ano são um complemento ótimo. A continuar, vou encaminhar seu comentário ao Prof Naomar da UFBA.