terça-feira, 31 de outubro de 2006

Genéricos cada vez mais populares nos Estados Unidos

Há dez anos, a situação era a seguinte: (1) Estados Unidos ninguém ousava falar em genéricos, exceto alguns idosos inconformados com os preços dos medicamentos, as farmácias escondiam na prateleiras e, os médicos não prescreviam; (2) no Brasil iniciava-se a discussão e processo de adoção de um projeto considerado obra de um "maluco', o então deputado Eduardo Jorge (PT-SP) e, por um Ministro "oportunista", José Serra. Vários médicos e professores de medicina diziam em alto e bom som, que os "genéricos não pegariam". Bem, a história brasileira é conhecida. A história americana pode ser acompanhada, hoje (31/11/06), no The Wall Street Journal na reportagem mostrando que todas as empresas de seguro-saúde e a maioria dos empregadores estão exigindo que se prescreva somente genéricos, ou que haja substituição do medicamento de marca pelo genérico.
Alguns planos de saúde não estão mais exigindo o pagamento do sistema de co-pagamento quando o medicamento for genérico, ou seja há subvenção total para genéricos. A comparação de novos genéricos lançados no mercado comparado ao medicamento de marca referência mostra que os genéricos suplantaram as vendas rapidamente dos medicamentos de referência.
Comentário: os medicamentos genéricos representam um avanço na assistência farmacêutica. No Brasil vingou porque houve determinação política, apesar da oposição da indústria farmacêutica, via porta-vozes na imprensa, academia e sociedades de especialistas.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Financiamento dos Republicanos à Big Pharma.

Essa informação é passada somente no original para não haver dúvida. Encontra-se no The Wall Street Journal de 25 de outubro de 2006. Reproduzo três parágrafos não consecutivos.
título : Fearing a Democratic Victory, Drug Makers Fund Key Races
(1) Few businesses have more at stake in next month's congressional elections than pharmaceutical makers. Assailed by Democrats, drug companies are pouring millions of dollars into close races, giving some Republicans a financial edge. In the process, the industry is becoming not just a campaign backer, but also a campaign issue.
(2) The Republican-controlled Congress has been kind to drug makers. As the prescription-drugs benefit was crafted, Republicans battled not just Democratic critics but also fiscal conservatives in their own party who opposed creating the expensive government program.
(3) Congressional Republican leaders prevented Medicare from negotiating prices with the industry. They also killed a proposal that would have allowed the government to offer its own coverage in competition with those sold by private companies. The industry successfully argued that the government's clout would mess up prices and stifle innovation.

Raça e Saúde: melhor ler, refletir e, depois opinar.

Na semana passada, notícias imputando afirmações que nunca um Ministro da Saúde faria: "O SUS é racista". Coisas da pressa em formatar manchetes. A questão é muito complexa e, não resolvida. Um blogue não é local adequado para expor toda complexidade que o assunto exige.
Recomendo a leitura de dois artigos de livre acesso que estão na secção "Cursos de Pós Graduação": "conceito de raça" e "raça e hipertensão' de Sérgio Danilo Pena (professor da UFMG) e Josué Laguardia (doutorando da FIOCRUZ), respectivamente.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Rastreamento para câncer de pulmão: finalmente algo novo!

O The New England Journal of Medicine publicou hoje os resultados do The International Early Lung Cancer Action Program Investigators , um estudo que realizou tomografia de tórax em 30 mil participantes que eram ex-fumantes ou com risco de câncer, diagnosticou câncer de pulmão em 484 participantes, dos quais 412 (85%) tinham a doença no estágio inicial e, a sobrevida em 10 anos estimadas foi de 88% nesse subgrupo. Entre os 302 participantes com estágio inicial que foram operados no primeiro mês de diagnóstico, a sobrevida subiu para 92%. Os 8 participants com doença na fase inicial que não receberam tratamento morreram dentro de 5 years depois do diagnóstico.
Comentário: o resultado desse estudo é esperado há muito tempo, depois do fracasso do rastreamento do câncer de pulmão por radiografia de tórax. Hoje, há verdadeira histeria pelo rastreamento de cânceres de crescimento lento e baixa letalidade e, verdadeiro desprezo em detectar o câncer que mais mata, o de pulmão. A proposta é de rastrear somente os ex-fumantes e fumantes passivos. Os fumantes atuais não devem ser submetidos e, sim tratados para cessar o vício. No caso da confirmação desses dados em outras pesquisas, estudos de custo-efetividade irão indicar o quanto e quando será adequado realizar rastreamento para câncer de pulmão. Conclusão, apesar de um ceticismo enorme em relação ao check up de uma forma geral, principalmente para câncer de próstata, adoto uma posição de otimismo cauteloso em relação à proposta de rastreamento com tomografia para ex-fumantes. Esse estudo dará muito o que falar.
O resumo do texto pode ser lido em http://www.nejm.org e, cópias do artigo original podem ser solicitadas à autora, Dra. Claudia Henschke em chensch@med.cornell.edu

Porto Seguro vende carteira de planos individuais

A Porto Seguro vendeu para a Amil a carteira de seguro saúde individual que representava um décimo do seu faturamento. Há rumores que outros empresas também estejam vendendo essa categoria de planos para se fixar nos planos corporativos. Essa pode ser uma tendência de especialização entre seguro saúde e medicina de grupo. Os primeiros teriam como foco o cliente empresarial e, o segundo o individual. Isso faz sentido com a proposta das medicina de grupo e, Unimed em aumentar os serviços próprios para controle de custo. Antes que alguém envie um email cobrando coerência, informo que o destaque nesse blog é para mostrar como o mercado privado está se organizando, somente isso. Como toda medida racionalizadora nessa área, os honorários médicos serão os mais atingidos.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Stents farmacológicos: cada vez mais, evidências contrárias.

Esse blog tem se dedicado a seguir a saga dos stents farmacológicos com três posts anteriores. Há bom tempo há evidências fortes que mostram risco aumentado de trombose nesses aparatos quando comparado àqueles sem proteção. O mercado de stents é da cifra de 5 bilhões de dólares e, duas empresas a Boston Scientific e a J&J dominam o mercado, cada um com sua marca, Taxus e Cypher, respectivamente. Alguns pesquisadores já questionaram se os stents farmacológicos forem implantados em todos os doentes com aterosclerose, não haveria quebra do sistema de saúde americano. Não, sei mas com certeza no Brasil isso ocorrerá. Ontem, no Transcatheter Cardiovascular Therapeutics 2006 realizado em Washington foi apresentada a avaliação dos dados primários dos principais ensaios clínicos, onde o uso do Cypher aumentou em 0,6% o risco de trombose e a aplicação do Taxus em 0.4%. Em outras palavras, 2-3 pessoas em 500 apresentam trombose comparada ao uso de stents sem tratamento farmacológico. Em termos populacionais, essa proporção tem impacto muito grande, além de implicar no uso continuado de medicação antiplaquetária por longo tempo.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

WSJ: Medicare restringe a "auto-referência" de ressonâncias magnéticas.

The Wall Street Journal (23/10/06) informa que autoridades federais americanas preocupadas com exames desnecessários e aumento de custos estão tentanto reduzir o rombo (to shrink loopholes). O Ministério da Saúde local está tentando impedir a auto-referência, ou como escrito to crack down on the practice of "self-referral," in which a doctor has a financial interest in tests or other services he or she orders for a patient. Os custos de imagem são os principais do sistema Medicare, do governo federal para idosos com aumento de 20% ao ano desde 1999. Em 2005, Medicare gastou US$ 7 bilhões para tomografias e ressonâncias magnéticas. Por ser, o principal segurador, provavelmente a política do Medicare será seguida pelas empresas privadas. Para exemplificar a situação atul, o jornal informou que a Siemens distribuiu um comunicado aos otorrrinolaringologistas estimulando a compra ou leasing de aparelhos de ressonância. Segundo a empresa, um aluguel de cinco anos por US $477,000 propiciará um rendimento de US$843,000 para cinco exames encaminhado por dia e, de US$2.1 million no caso do encaminhamento de 10 pacientes ao dia.
Comentário: se os Estados Unidos têm problemas dessa natureza, o que dizer do Brasil, com recursos bem menores, mas com a mesma volúpia de consumo de exames diagnósticos?

Planos de saúde ampliam serviços próprios

Valor Econômico (23/10/06) informa que a Medial Saúde captou R$500 milhões na bolsa de valores para ampliar os serviços próprios com a compra de um novo hospital. A empresa pretende aumentar de 39% para 50% das despesas de sua carteira nos próprios da empresa. Outra forma de redução de custo será a compra de laboratório clínico para fugir do controle das duas principais empresas, Fleury e Diagnóstico da América. A reportagem informa que a opção de serviço próprio foi também adotada com êxito pela Amil e Unimed Paulistana. Comentário: o assim chamado “terceiro pagador”, no caso os planos de saúde não estão mais agüentando ficar no meio da corda entre hospital e cliente. A opção pela operação de clínicas e hospitais próprios reduzirá custo, principalmente o decorrente de honorários médicos.

domingo, 22 de outubro de 2006

Haim Gruspun: médico, psicólogo, advogado, escritor, intelectual...

Morreu Haim Grunspun, médico formado em 1952 na FMUSP e, com longa carreira na psiquiatria e psicologia infantil. Convivi com ele quando estudante de Medicina (lá nos anos 70) pela amizade que tinha com seu filho Henrique, passei a noite da invasão da PUC em 77 em sua casa, meio refugiado. Depois, na época da residência foi um bom conselheiro em relação médico-paciente. Poderia ter sido um médico popstar, mas sempre preferiu se expressar nos vários livros que publicou na sua área de conhecimento. Há muito tempo não o via. Para mostrar como foi sua carreira: judeu, teve direito a "missa" de sétimo dia em colégio católico. Haim!

sábado, 21 de outubro de 2006

Homicídios: imprensa e estatuto das armas

O Estado de S. Paulo (21/10/06) esconde um dado importante nas páginas internas: a queda de homicídios no Estado no terceiro trimestre em relação ao segundo de 2005 e no mesmo período de 2005. No primeiro semestre de 2006 ocorreram 1129 homicídios contra 1422 em 2005, ou seja uma queda de 20%, mesmo como os famosos ataques do PCC. Interessente não ter nenhuma chamada de capa! A queda dos homicídios na cidade, estado e no Brasil é um fato que merece ser muito discutido porque as causas são muitas e, merecem ser esclarecidas para que possam ser melhor implementadas. Porém, há um receio na imprensa em noticiar fatos agradáveis. A velha história do cão que mordeu o homem!
Hoje, completa um ano do plebiscito do controle de armas. Infelizmente, uma chance jogada fora para o estabelecimento da plena cidadania e, da segurança individiual contra acidentes domésticos, homícidios intradomiciliares e, suicídios. Irônico seria que se caso aprovado, os defensores da proposta vencida no plebiscito estariam mostrando o impacto positivo da redução das armas. Esse fato mostra que as relações de "causa e efeito" nas relações sociais é muito complexa e, a manipulação política muito provável. Cabe àqueles que conseguem ainda pensar além de Veja e CartaCapital discutir e avançar na compreensão desse e outros fenômenos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Aumenta exportação de equipamento médico-hospitalar

Valor Econômico (19/10/06) informa que a indústria de equipamento médico-hospital aumentou 33% de R$ 46,3 milhões do primeiro semestre de 2005 para R$ 61,3 milhões no mesmo período desse ano. Considerando a defasagem cambial é um bom desempenho para um setor que fatura quase R$3,3 bilhões ao ano considerando também as importações. Calcula-se hoje que com material nacional é possível equipar 90% de um hospital geral. Na reportagem há vários relatos de fabricantes afirmando que a qualidade do nosso material não fica devendo nada aos demais. O Estado de São Paulo concentra 85% das empresas da área. Comentário: esse fato é auspicioso porque permitirá (1) aumento da produção e redução do preço unitário devido a ganhos de escala; (2) melhoria da qualidade para atender a mercados mais exigentes com marcas regulatórias inflexíveis (houve investimento considerável para obtenção de certificados de qualidade; (3) aumento do número de patentes brasileiras.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Mais um golpe contra os stents: EVA 3S

O tratamento da doença aterosclerótica nos diversos territórios arteriais é motivo de polêmica em vários níveis: (1) mudança de "estilo de vida" vs tratamento medicamentoso; (2) tratamento medicamentoso vs intervenção cirúrgica; (3) cirurgia ou angioplastia com stent (foto); (4) stent nú versus stent revestido. O The New England Journal of Medicine (18/10/06) divulga o resultado do ensaio clínico francês EVA-3S que comparou tramento cirúrgico clássico com o implante de stent em pacientes com obstrução da artéria carótida e com sintomas. O resultado foi que após 30 dias da intervenção, a taxa de novo acidente vascular cerebral ou morte foi de 3,9% no grupo cirúrgico e 9,6% no grupo stent. Em seis meses a diferença continuava significativa entre os dois grupos, favorecendo a cirurgia.
A comparação de técnicas cirúrgicas, onde a habilidade e a curva de aprendizado interferem sempre deixam margem à dúvidas mesmo depois de ensaios clínicos como esse. Do ponto de vista econômico, a aplicação do stent é mais rentável para os setores dinâmicos e centrais da economia, leia-se Estados Unidos - únicos fabricantes do equipamento.

Mais um fonte da juventude que secou

Na segunda-feira (16/10/06), o Diário de S. Paulo foi o único órgão de imprensa a valorizar o Dia da Menopausa. No artigo, um propagandista da indústria farmacêutica alega que ensaios clínicos , como o Women´s Health Iniative eram "polêmicos". Pior, o artigo induz a erro de prescrição da hormonioterapia feminina, que nem a bula do principal remédio utilizado, o Premarin, indica, ao contrário, não recomenda e , adverte contra o uso da estrogênioterapia para prevenir doença cardiovascular. Hoje, quarta-feira o The New England Journal of Medicine divulga um ensaio clínico sobre outra proposta de reposição hormonal: testosterona, hormônio masculino tanto para homens ou mulheres idosos com níveis baixos de deepihidroandrosterona (DHEA) e de testosterona. Não precisamos gastar tempo para contar que após de dois anos de reposição não houve qualquer ganho na qualidade de vida na população testada. Como já citamos aqui, Brown-Sequard foi pioneiro há cem anos na hormonioterapia utilizando extratos de glândula de cães. Há poucos anos, pesquisadores australianos mostraram que a quantidade no experimento de Brown-Sequard era menor do que o fisiológico. O resumo do estudo acima pode ser lido em http://www.nejm.org. Em tempo, o DHEA é vendido nas lojas de vitaminas dos Estados Unidos há décadas.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Disney e a obesidade infantil

A Disney adota atitude inédita para evitar a obesidade infantil. Segundo Robert Iger, diretor da companhia, a Disney somente autorizará o uso do seu nome e de seus personagens em produtos destinados a crianças que sigam diretrize adequadas em termos de calorias, gordura, gordura saturada e açúcar. A Disney também planeja retirar alimentos ricos em trans fats servidos nos seus parques temáticos. Alguns produtos como bolos de aniversário e balas ainda não serão retirados do mercado, provavelmente por motivos contratuais.

domingo, 15 de outubro de 2006

Vacinação para pneumococos: devagar com o andor!

Um pressuposto básico para se acreditar nos dados e qualidade de sistemas de saúde em qualquer país é a existência de imprensa livre, ministério público atuante e poder judiciário independente. Entendam o recado a quem merecer. O pressuposto seguinte para a credibilidade do sistema é a crítica às três instituições acima citadas. Nesse domingo (15/10/06) o Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo deram um destaque exagerado à vacinação para pneumococos. Ou melhor, abriram uma porta de discussão que faltou apresentar um dos jogadores importantes nesse jogo: o Sabin Vaccine Institute que apesar de ser organização não-lucrativa faz um lobby (legítimo, legal e ético, porque não empurra bobagem), mas representa uma força cujo objetivo é a venda de vacinas. Tudo bem, vender não é proibido, nem imoral, porém os interesses devem ser esclarecidos aos leitores. Nas reportagens seria importante noticiar que que o Instituto realizará entre 13-14 de dezembro, o Second Regional Pneumococcal Symposium sem a participação de pesquisadores do Brasil (há brasileiros como o presidente do Instituto, Ciro de Quadros) para discutir a oportunidade da vacinação. Em tempo, sou favorável à vacinação antipneumocócica, mas aonde estão nossos especialistas? Na platéia? Abaixo o programa (muito interessante)

Objectives The Second Regional Pneumococcal Symposium will bring together policy makers, national public health and financial authorities, pediatric and infectious disease societies, scientists, researchers, bilateral and multilateral agencies, and other partners involved in supporting immunization programs in the Americas. Participants will benefit from seminars that: Review the epidemiology of pneumococcal disease, including estimates of the health and economic burden, Summarize the status of pneumococcal vaccine development and implementation. Identify key actions for the advancement of pneumococcal disease prevention in the Americas. Venue São Paulo, Brazil has been chosen as the venue for the pneumococcal symposium. The Conference will be held at the Sofitel Hotel December 13-14, 2006. Conveners: Albert B. Sabin Vaccine Institute; Pan American Health Organization ;GAVI's PneumoADIP at Johns Hopkins; US Centers for Disease Control and Prevention Scientific Organizing Committee Dr. Carlos Castillo-Solorzano, Pan American Health Organization Dr. Ciro de Quadros, Albert B. Sabin Vaccine Institute (Secretary) Dr. Orin Levine, GAVI’s PneumoADIP Dr. Cynthia Whitney, Centers for Disease Control and Prevention and Prevention Main Session Topics Global Pneumococcal Epidemiology Pneumococcal Epidemiology in Latin America Impact of Conjugate Vaccines: Direct and Indirect Effects Issues in Conjugate Vaccination and Vaccine Development Update Opportunities for the Introduction of Conjugate Pneumococcal Vaccine Perspectives on the Global Prevention of Pneumococcal Disease Agenda A working agenda will be posted on the conference website. Poster Presentations Poster submissions can be made through the Abstract Submission menu. Contact Information Albert B. Sabin Vaccine Institute - 1889 F Street NW Suite 200S - Washington, DC 20006 Phone: (202) 265-6515 and (202) 842-5025 Fax: (202) 842-7689 ana.carvalho@sabin.org